


Mais de 50 anos após o famoso estudo de Philip Zimbardo de 1971 se tornar um dos maiores exemplos da psicologia a não serem seguidos, o experimento de aprisionamento de Stanford volta a ser analisado, agora como um novo reality show.
O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford refaz a pergunta central do estudo: o poder corrompe? Mas a série vai além. Repensada para uma época em que as questões de autoridade, conformidade e natureza humana são cada vez mais urgentes, 30 participantes aceitam entrar em uma prisão real e ser distribuídos aleatoriamente como guardas ou detentos.
Para entender como a equipe por trás da série reproduziu um dos experimentos mais complexos do ponto de vista ético da ciência comportamental com novas proteções, um grupo misto em termos de gênero e a supervisão de especialistas (diferentemente do original), o Tudum conversou com a produtora executiva Jane Lipsitz, da Alfred Street Industries.
“Quando anunciamos a série, muitas pessoas se revoltaram por estarmos recriando o experimento de aprisionamento de Stanford. E, com base no que aconteceu no original, eu entendo completamente essa reação. Apenas recriar o experimento original seria impensável. Mas estamos em uma época diferente, com participantes diferentes, proteções diferentes e, por isso, uma jornada muito diferente,” conta Lipsitz, destacando que a equipe passou mais de um ano desenvolvendo a série.

O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford estará disponível na Netflix no dia 21 de outubro e terá seis episódios.

Em 1971, um psicólogo de Stanford realizou um estudo equivocado em que universitários homens eram designados aleatoriamente como guardas ou prisioneiros: o experimento de aprisionamento de Stanford. A intenção era que ele durasse uma ou duas semanas, mas tudo saiu do controle em apenas seis dias. Ainda assim, ele buscava responder a uma pergunta que continua muito relevante: seria o poder capaz de mudar pessoas comuns? O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford recria esse famoso estudo com proteções mais atuais e a supervisão de especialistas, diferentemente do original. Será que a moral dos participantes vai ser ofuscada pelos seus papéis? Eles vão continuar sendo quem são, apesar dos uniformes? E como o público se comportaria na mesma situação?
Jane Lipsitz aprofunda a questão: “Todos sabem que hoje somos constantemente confrontados com questões sobre autoridade, conformidade, identidade de grupo e os sistemas que nos dividem. Era o momento ideal para perguntar a uma nova geração se o poder é capaz de mudar quem somos ou se conseguimos resistir às nossas funções, às regras e aos sistemas em que somos colocados. A gente nem imaginava o que iria descobrir ao longo do processo”.
Segundo a produtora executiva, essa foi uma das experiências mais surreais da sua carreira: “A série tem coisas surpreendentes para contar, questões muito relevantes para o mundo atual. Quero que o público aprenda com nossos especialistas e perceba que, como sociedade, podemos refletir melhor sobre o poder e seus desdobramentos. Mas meu maior desejo é que a série faça as pessoas conversarem sobre questões importantes. Isso já está acontecendo”.

O estudo original de 1971 foi feito em uma prisão falsa no campus da Universidade de Stanford, mas O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford se passa em uma prisão de verdade. Para revisitar o experimento, Jane Lipsitz queria que o ambiente parecesse o mais real possível: “Uma prisão de verdade tem uma história, uma energia e um senso de confinamento que não são possíveis de recriar em um set. E adicionar detentos reais cria outra camada de intensidade e uma nova perspectiva. É um lembrete constante de que, fora do experimento, esses papéis e dinâmicas de poder têm consequências muito reais”.
Com filmagens 24 horas por dia, sete dias por semana, o que aconteceu foi envolvente, às vezes desconfortável e outras vezes totalmente inesperado. “A única forma de fazer isso era sem um roteiro. O experimento de aprisionamento de Stanford abriu o caminho para experimentos sociais que inspiraram reality shows. Você constrói um ambiente complicado, coloca pessoas reais e registra o que acontece.”
Para minimizar a influência das filmagens nos participantes do estudo, as interações com a produção foram “restritas ao máximo” usando câmeras robóticas dentro da prisão. As entrevistas foram feitas de modo que os participantes não conseguissem ver quem entrevistava. Como as câmeras já fazem parte da vida moderna, os participantes começaram a falar diretamente com elas, mostrando como a relação da sociedade com a tecnologia mudou desde 1971.

O estudo original se concentrou em universitários. Na versão atualizada, Jane Lipsitz explica que uma das prioridades da produção era juntar um grupo que refletisse melhor o mundo de hoje em questões como origem geográfica, gênero, convicções políticas, histórico socioeconômico e experiência de vida: “Para nós, o experimento só seria legítimo se o elenco fosse mais amplo. Incluir mulheres foi fundamental, porque permitiu criar um diálogo importante sobre políticas de gênero e poder. Não pensar sobre isso nesta versão teria sido um erro”.
A produção instaurou vários elementos de segurança para proteger os participantes ao longo do experimento, inclusive realizando testes psicológicos antes do início do estudo. “Todos os participantes tomaram uma decisão informada ao se inscrever e passaram por testes psicológicos antes de entrar no experimento. Todos tinham uma palavra de segurança que poderiam usar para sair na hora que quisessem e tínhamos uma equipe de psicologia disponível o tempo todo para ajudar”, conta Jane Lipsitz. Havia psicólogos monitorando o experimento o tempo todo para intervir caso surgissem preocupações sobre o bem-estar de algum participante.

Assim como os participantes, era fundamental que a equipe de especialistas tivesse origens e experiências diversas. Jane Lipsitz conta que um ponto interessante foi a discordância entre os três especialistas: “Eles questionavam um ao outro, o que deixou as conversas sobre o experimento muito mais empolgantes”.
Confira o vídeo no topo da página para conhecer um pouco do que acontece por trás das paredes da prisão.












































