





Timshel! Esta é a última palavra dita em A Leste do Éden, romance seminal de John Steinbeck lançado em 1952. E, após pronunciá-la, Adam Trask “fechou os olhos e adormeceu”.
A nova adaptação em minissérie feita por Zoe Kazan e Jeb Stuart preserva esse momento, uma conversa trágica entre Adam (Christopher Abbott) e Cal Trask (Joseph Zada), pai e filho, depois que a poeira no vale do Salinas baixou e a tragédia deixou sua marca na família Trask. Mas o que significa timshel?
Essa é a pergunta que os personagens de A Leste do Éden exploram ao longo da série, desde a complexa e polêmica Cathy Ames interpretada por Florence Pugh até o bem-intencionado e rabugento Adam Trask vivido por Abbott, passando pelos filhos gêmeos do casal, Cal e Aron (Joe Anders).

Para Zoe Kazan, a pergunta representa o centro da história e sua principal motivação para abordá-la.
“É a palavra mais importante que existe”, diz Lee (Hoon Lee), que trabalha na casa de Adam na Califórnia.
Esse vocábulo vira tema de conversa entre Lee e o fazendeiro Samuel Hamilton (Ciarán Hinds) depois que os dois viram amigos. A relação de Hamilton com o livro de Gênesis tem um impacto profundo em Lee, que se vê fascinado por uma de suas palavras em hebraico: timshel.
Com ajuda dos estudiosos que consultou em São Francisco, Lee entende que timshel significa “poderás”. Segundo a Bíblia, Deus fala para Caim: Tu poderás dominar o pecado. É uma validação do livre-arbítrio da humanidade: o seu destino não está escrito.
“Acho que esse conceito abre uma porta. Ele nos permite pensar que não importa o que fizemos ou o que nossos ancestrais fizeram, temos a obrigação de pensar em nós mesmos como seres capazes de mudança”, diz Zoe Kazan.
A Leste do Éden é uma história pessoal para a produtora Zoe Kazan por ser um livro que amou ler na infância e que seu avô Elia Kazan adaptou para o cinema no filme “Vidas Amargas”, indicado ao Oscar®. Esta versão de 1955 se concentrou apenas no terceiro ato do livro, enquanto Zoe quis capturar o clima épico da obra, começando pela infância de Adam e Charles (Mike Faist) e concluindo com a história da próxima geração da família.
“O livro inteiro é muito importante para mim, com todas as questões sobre legado. O que você recebe? O que você carrega? Como reconciliar o que somos hoje com a nossa sombra?”, filosofa Zoe Kazan.
Outra coisa que chamou a atenção da roteirista e produtora: Cathy Ames. Até o narrador onisciente de Steinbeck pareceu confuso em relação a ela, chamando a personagem de monstro sem coração em um determinado momento e mudando de ideia logo depois. Zoe Kazan encontrou sua Cathy na indicada ao Oscar® Florence Pugh, que estava ansiosa para interpretar esta mulher complicada.
“Uma das coisas de que me orgulho é ser capaz de dar uma chance a personagens desagradáveis. Isso me permite tentar entender essas personagens, o processo de decisão delas, além de sentir empatia e permitir que a história delas seja maior do que o fato de terem tomado decisões ruins em algum momento da vida”, diz Florence Pugh, que também é produtora executiva da série.
As más decisões de Cathy movem a trama de A Leste do Éden e levam à sua conclusão indelével. Continue lendo para mergulhar no último ato da nova série de Zoe Kazan, já disponível na Netflix.

Os primeiros episódios de A Leste do Éden analisam a infância de seus três personagens principais: os irmãos Adam e Charles Trask e Cathy (Pugh), a mulher que fica entre eles. Antes de conhecer Cathy, Adam e Charles foram criados pelo pai Cyrus (Tracy Letts) para terem vidas bem diferentes: Adam ficaria com o legado militar de Cyrus, veterano da Guerra Civil dos EUA, enquanto Charles cuidaria da fazenda que é propriedade da família.
É um arranjo que gera ressentimento e às vezes violência entre os irmãos. Adam recusa um bom emprego em Washington oferecido pelo pai para voltar ao exército e depois pedir carona em trens. Sentindo-se abandonado pelo pai, Charles fica em casa e acaba recebendo o irmão de volta após uma longa ausência. “É uma relação complicada entre Charles e Adam, com muita animosidade, inveja e raiva. E também existe uma quantidade imensa de amor”, diz Mike Faist. Esse amor sobrevive até à revelação de que o pai pode não ter sido sincero com eles em relação à vida militar. E parece que ele vinha roubando dinheiro do exército, prejudicando a herança e a integridade da família.
Qualquer harmonia existente entre os dois vai para o espaço quando Cathy aparece na porta deles após ter sido espancada quase até a morte. Adam insiste em cuidar dela, mas Charles fica ressabiado. “Charles desconfia de Cathy logo de cara porque se vê nela. Os iguais se reconhecem”, diz Mike Faist.
O episódio 2 revela que ele tinha razão. A infância sombria de Cathy criou um monstro. Ela leva um pretendente ao suicídio e incendeia a casa da família, queimando os pais vivos e forjando a própria morte. Já adulta, Cathy vira amante de um dono de bordel (Josh McConville). Mas, ao desconfiar das intenções dela, ele a espanca e a abandona na estrada perto da fazenda da família Trask.
Cathy vê em Adam a possibilidade de viver em segurança, então aceita se casar com ele, mas se identifica com o jeito intenso de Charles. Os dois até têm uma cicatriz na testa que os une como filhos de Caim. Então, após o casamento com Adam, ela vai para a cama com Charles após dopar o novo marido.
“Ela é provavelmente uma das personagens mais incríveis da literatura em termos de comportamento, ousadia, no jeito implacável e na capacidade de se cuidar. Adam não fazia ideia de onde estava se metendo”, diz Florence Pugh.

Cathy foi bem clara com o novo marido ao dizer que não tinha o menor interesse em se mudar com ele para a Califórnia. Mas Adam compra as passagens de trem mesmo assim e usa a herança do pai para adquirir um grande pedaço de terra no vale do Salinas, mesmo sabendo que Cathy era totalmente contra a ideia. “Ele está tão cego de paixão que mal percebe o que ela está fazendo. É uma dinâmica muito interessante de interpretar porque às vezes Cathy fala algo e é como se Adam não ouvisse. Ou ele escolhe agir assim ou simplesmente não ouve”, diz Christopher Abbott.
Em pouco tempo, Cathy se vê presa em uma armadilha que nunca tinha imaginado para si: a maternidade. Ela decide resolver a situação sozinha e tenta abortar, mas depois de sangrar até quase morrer, o médico que a atende faz uma ameaça se ela tentar fazer isso de novo.
Cathy nunca aceitou a ideia de ser mãe, mesmo após dar à luz dois meninos. Ela resiste ao que está por vir até durante o trabalho de parto, chegando a morder a mão do novo vizinho, Samuel Hamilton, quando ele lhe oferece ajuda.
Pouco tempo depois do nascimento dos filhos, Cathy decide sair da vida que não quer. Sabendo que Adam não vai impedi-la de abandonar o lar e a família, Cathy atira no marido e o deixa lá para morrer. Embora Adam se recupere em termos físicos, ele ficou emocionalmente arrasado a ponto de não cuidar dos gêmeos recém-nascidos e nem batizá-los. Até que Samuel, com ajuda do empregado chinês da família, Lee (Hoon Lee), convence Adam a dar aos meninos a dignidade de ter nomes. Eles batizam os irmãos de Aron e Caleb ou “Cal” em homenagem às figuras bíblicas de Aarão e Calebe, enquanto a mãe abandonou este Éden de uma vez por todas.

Enquanto os filhos crescem sem ela, Cathy volta à vida de profissional do sexo, mas agora em um bordel administrado por uma mulher, Faye (Martha Plimpton). “Foi uma escolha que ela fez para ter independência financeira. Obviamente, o sexo pode ser usado para explorar alguém, mas foi assim que Cathy encontrou segurança. Um bordel era uma das únicas empresas que as mulheres poderiam ter para ganhar o próprio dinheiro sem depender da conta bancária de um homem”, explica Pugh.
Cathy é meio que adotada por Faye, que se afeiçoou a ela. “Quando conversei com a diretora de elenco Ellen Lewis e o coshowrunner Jeb Stuart sobre a escalação da Faye, perguntei se eles conseguiam pensar nas grandes atrizes que faziam papel de ingênuas nos anos 1980 e 1990. Eu senti que Faye deveria ser uma versão de Cathy vinte ou trinta anos mais velha”, diz Zoe Kazan. Com a estrela de O Peso de um Passado e O Tiro que Não Saiu pela Culatra Martha Plimpton, a produção encontrou a Faye perfeita, que trata Cathy como uma filha.
Desesperada para tirar Cathy (agora conhecida como Kate) das condições insalubres do trabalho sexual, Faye transforma a jovem em sua herdeira, cargo que Cathy aceita. Logo depois, ela toma champanhe demais e deixa seu lado cruel à mostra. Faye acorda na manhã seguinte disposta a acreditar que a noite foi um sonho, mas o estrago já estava feito. Nos meses seguintes, Cathy atormenta, agride e até dopa a “mãe” até quase matá-la. Assim que a oportunidade aparece, ela termina o trabalho e assume o comando do bordel com o nome de Kate. Ao som de “Paint It Black” dos Rolling Stones, o bordel anteriormente amigável de Faye passa por uma transformação sombria.

Na juventude, Cal e Aron estão perigosamente perto de recriar o relacionamento trágico e amargo vivido por Adam e Charles, incluindo o triângulo amoroso. “Nós vemos como a bondade de Adam e a amoralidade de Cathy se encontram e se expressam na nova geração. A história realmente pergunta: será que somos capazes de mudar? É possível fugir do passado? E, se não podemos fugir do passado, como avançar para um futuro diferente?”, questiona Zoe Kazan.
Mas Cal e Aron têm uma figura paterna que a natureza não forneceu: Lee. “Acho que em vários aspectos ele foi o verdadeiro pai para Cal e Aron, a última geração desta narrativa. Essa é uma história de pais e filhos, que aborda o que uma geração deixa para a próxima”, diz Zoe Kazan.
Lee é um dos elementos mais subversivos do livro de Steinbeck, e a série faz jus a isso. “Ele assumiu o aspecto externo de um imigrante chinês, usando roupas tradicionais e falando com sotaque carregado, mas descobrimos que isso é uma máscara. É o jeito que ele encontrou para ser compreendido por outras pessoas que só o aceitariam com essa aparência”, explica Lee.
A série faz algumas mudanças na história de Lee, no que Kazan chama de desdobramento. “Imagine aquele origami de prever o futuro em que você desdobra e vê ganhar uma forma, depois dobra novamente e vê de um jeito diferente. É isso que eu estava tentando fazer”, explica ela.
Lee mora com a família Trask e se dedica a ser uma “esposa imaginária” para Adam, criando os dois meninos como se fossem seus filhos. “Eu amo a dinâmica entre Adam e Lee. É o relacionamento platônico mais lindo que já vi. Eles se transformam em um casal de longa data criando os filhos”, diz Christopher Abbott.
Os gêmeos são completamente diferentes: Aron tem cabelos castanhos e é o menino de ouro, enquanto Cal é loiro e esconde um lado sombrio. Os dois acreditam que a mãe morreu há muito tempo e foi enterrada no leste. Mas Cal logo descobre que não foi bem assim que tudo aconteceu e faz uma visita ao bordel de Cathy, agora famoso pelos serviços violentos.
Cal volta desse encontro certo de que está destinado a repetir os pecados da mãe. Mas Lee lembra a ele que seu destino será decidido pelas escolhas que fizer, não pela genética: timshel. Determinado, Cal segue em frente disposto garantir a vida investindo em contratos futuros de soja para reconquistar o dinheiro que o pai perdeu na malsucedida empreitada de transportar alface pelo país em vagões com gelo.

Nos episódios finais, Cathy se esconde no centro da escuridão do bordel. Ela mantém seu status chantageando homens poderosos, mas a paranoia começa a tomar conta. Cathy se convence de que um ex-funcionário sabe que ela matou Faye e manda o empregado Joe (Brad McMurray) procurá-lo. Mas ele tenta extorquir Cathy, que se sente encurralada e manda o xerife prender Joe por um crime antigo. Depois, ela afunda nas próprias lembranças.
Uma das lembranças é de Charles, que morreu alguns anos antes e se manifesta como uma espécie de fantasma para Cathy em seus momentos finais. “Essa é uma história sobre pessoas que estão enfrentando os próprios demônios e tentando mantê-los bem longe. Alguns conseguem fazer isso melhor do que outros ao longo da trama”, conta Mike Faist.
A última cena de Cathy retoma a abertura da série: uma imagem assustadora da jovem Cathy lendo Alice no País das Maravilhas e sendo chamada para a floresta por uma figura sinistra. "Uma coisa aconteceu comigo quando eu tinha só cinco anos", diz ela ao fantasma de Charles. O que realmente aconteceu? Fica na imaginação do público.
Essa possível explicação para a alma conturbada de Cathy foi outro exemplo de Kazan desdobrando o romance de Steinbeck. “O livro dá a entender que dois meninos estupraram Cathy quando ela era criança. Tem ainda a relação com um professor que definitivamente se comporta de um jeito inadequado. No livro, Steinbeck culpa Cathy e usa tudo isso como prova de sua natureza maligna. Eu encaro de outra forma”, diz ela.
Zoe Kazan transforma o uso que Cathy faz da poção “Beba-me” de Alice no País das Maravilhas em um último momento de dissociação, no qual Cathy vê sua versão mais jovem e se despede deste mundo cruel. “Ela sabe que é o fim. E naquele instante ela é visitada por uma versão de si na idade em que sofreu abuso pela primeira vez. Foi o começo de tudo: não ser ouvida e ser agredida criou a reação em cadeia que a levou a tomar as decisões que tomou ao longo da vida”, diz Florence Pugh.
Com isso, Cathy morre, deixando para trás um legado que vai continuar assombrando sua família.

Deprimido após perder a fortuna da família, Adam se concentra no destino dos jovens de Salinas que estão sendo chamados para servir ao país na Primeira Guerra Mundial. Enquanto isso, Cal fica responsável pelos cuidados do irmão e até se oferece para pagar a faculdade de Aron com o dinheiro que ganhou trabalhando. Mas tudo vai para o espaço quando Adam rejeita a ajuda financeira de Cal, pois acredita que esse dinheiro foi conquistado às custas do esforço de guerra. Cal fica arrasado e, com raiva, revela a verdade sobre a origem deles a Aron como forma de vingança.
Depois disso, Aron faz o impensável: larga a faculdade e entra para o exército, desesperado para ser dono do próprio destino. Ao receber a notícia, Adam tem um derrame. Ele se recupera, mas logo recebe uma notícia ainda pior: Aron foi morto. O segundo derrame deixa Adam paralisado e sem responder a estímulos.
Tomado pela culpa por ter contribuído para o sofrimento do pai, Cal se isola e mais uma vez é resgatado por Lee, que o leva ao leito de Adam e implora para que os dois se reconciliem. “Lee é esperança nessa história. Ele é um dos personagens mais bonitos da série. É por causa dele que a família aprende a se importar uns com os outros, a se ajudar e a se perdoar”, diz Florence Pugh.
Adam sussurra a palavra que define A Leste do Éden: timshel. O filho se aproxima do leito e entende que, mais uma vez, cabe a ele escrever o próprio futuro. “Essas coisas terríveis e vergonhosas, não importam quais sejam, não ofuscam nossa capacidade de escolher, aprender e mudar. Nesse sentido, acho que o livro é realmente a favor da ‘queda do homem’, de deixar o Éden. É como se dissesse que a mudança não é possível se nós permanecermos na perfeição”, diz Zoe Kazan.
Mas para Cal, Adam e Lee, mudar não só é possível como necessário.
A Leste do Éden já está disponível na Netflix.




























































