Maite Alberdi fala sobre Meu Próprio Filho e a história real por trás - Netflix Tudum

  • Versão da direção

    Meu Próprio Filho é o documentário que não dá para ignorar

    A cineasta Maite Alberdi fala sobre os quatro anos em que acompanhou uma história sem respostas fáceis.

    Texto original de Jessica Oliva
    7 de out. de 2026

O ano era 2009. Eleonor Alejandra Marín Mendoza, uma jovem de 26 anos funcionária de um hospital, acabou no centro de um dos casos criminais mais incomuns e surreais do México. Após fingir uma gravidez e enganar a sua própria família e a de seu marido por meses, ela foi presa, acusada de roubar uma bebê recém-nascida de um dos maiores hospitais públicos da Cidade do México usando uma sacola de presente. Essa tentativa desesperada de se tornar mãe foi notícia em todo o país. Ela alegou que tinha um acordo com a mãe da bebê, mas Alejandra foi condenada a 13 anos de prisão por sequestro. 

Mulher grávida usando um top rosa em um quarto todo rosa. Ela observa seu próprio reflexo no espelho com as mãos na barriga, com cosméticos e itens pessoais em uma penteadeira.

Treze anos se passaram até que a cineasta chilena Maite Alberdi conhecesse Alejandra, um tempo essencial para a história que iriam contar. Por volta de 2009, a diretora começou a capturar as primeiras imagens de Hora do Chá (La once), filme documentário que lhe rendeu aclamação internacional e consolidou o estilo íntimo e observacional do seu trabalho. Maite foi reconhecida como uma das principais vozes do cinema latino-americano contemporâneo: Agente Duplo, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar® de Melhor Documentário em 2021, a primeira para uma cineasta chilena, foi um divisor de águas, ampliando sua projeção internacional. Outra indicação ao prêmio veio dois anos depois com o documentário A Memória Infinita, que acompanha um casal lidando silenciosamente com o avanço da doença de Alzheimer. Mesmo nos momentos mais atarefados, Maite nunca perdeu seu instinto para reconhecer histórias fascinantes onde quer que elas aconteçam.

A diretora conheceu Alejandra, já com 39 anos, em fevereiro de 2022, enquanto pesquisava outro projeto na prisão feminina de Santa Martha Acatitla, na Cidade do México. A história da mulher que ultrapassou todos os limites para se tornar mãe chamou sua atenção imediatamente. “Não importa em qual projeto eu esteja trabalhando, ou em que fase da minha carreira eu esteja, sempre vou observar o que acontece ao meu redor e me conectar com histórias que realmente me tocam”, conta Maite.

Ela percebeu no caso de Alejandra algo que ia além das manchetes dos noticiários: uma oportunidade de abordar as expectativas, a culpa e as pressões sociais envolvidas na maternidade. “Encontrei na Alejandra uma mulher com quem todas as outras conseguem se identificar. A história dela trouxe questões que nós mesmas nos perguntamos, como o desejo de ser mãe, o quão pessoal é essa vontade e como ela é formada a partir de expectativas de outras pessoas. Esse se tornou o foco central do filme e a razão pela qual me conectei com ela. Sempre foi algo muito maior do que as circunstâncias incomuns da história dela”, relembra a cineasta.

Cinco adultos socializando em um parque infantil com brinquedos coloridos, árvores e plantas ao redor durante um dia ensolarado.

Uma história marcante nem sempre resulta em um filme. Por mais intrigante que o caso de Alejandra fosse, Maite encontrou um obstáculo. Tudo o que a mulher descreveu já tinha acontecido. Os abortos espontâneos, a pressão da família de seu marido, a falsa gravidez e o suposto sequestro ficaram no passado, onde as câmeras de um documentário já não podiam mais acompanhar, até mesmo quando existiam arquivos de imagens (que, nesse caso, não eram muitos).

Os filmes de Maite costumam acompanhar os acontecimentos no presente, seja um homem idoso trabalhando disfarçado em uma casa de repouso em Agente Duplo ou a rotina de um salva-vidas de praia em O Salva-Vidas (El Salvavidas). Apesar de saber que seu método de trabalho não funcionaria nesse caso, uma vez que Alejandra estava cumprindo os últimos meses de sua pena, seria possível acompanhar o retorno dela à liberdade. Porém o desafio era outro: como o filme poderia transmitir a profundidade emocional do passado de Alejandra?

“Para mim, um documentário começa quando descubro uma ideia, não apenas uma história. Nesse projeto, só percebi que tinha um filme quando entendi que o passado da Alejandra, na versão dela, poderia ser contado a partir de uma fantasia, fazendo o contraste de um mundo idealizado com a realidade concreta”, explica Maite.

Essa percepção foi a base do filme, com a história de Meu Próprio Filho sendo contada em duas metades diferentes. A primeira é construída a partir dos relatos de Alejandra, convidando o público a acompanhar os eventos somente pela perspectiva dela. Nesse filme dentro de um filme, os atores mexicanos Ana Celeste e Armando Espitia interpretam Alejandra e seu marido, Arturo, um jovem casal com dificuldades de engravidar, apesar de anos de tentativas. A vida doméstica deles parece comum para uma família de classe média mexicana. No entanto, esse mundo é sutilmente distorcido: uma projeção moldada pela imaginação da protagonista, às vezes extravagante e irreal, como se tivesse surgido diretamente da mente de Alejandra. 

Grupo de pessoas gravando uma cena de festa em uma sala com balões amarelos e brancos e uma mesa decorada com bolos e sobremesas. Ao redor, equipamento de filmagem e câmeras sob uma luz quente.

Maite, que colaborou com a diretora de arte chilena Estefanía Larraín (No, Uma Mulher Fantástica) para dar vida a essa realidade estranha, diz que não era apenas uma reconstituição. “Quando pensamos em reconstituições em documentários, normalmente são baseadas em fatos. Mas o que estávamos encenando aqui era uma perspectiva. Sem o lado da Alejandra sobre os eventos, seria impossível se conectar com ela. Teríamos caído no preconceito acerca do caso e na forma como a mídia contou a história, ao invés de como ela viveu tudo isso. Cada decisão artística foi imaginando a realidade dela. Acho maravilhoso que a produção de documentários agora permita esse tipo de liberdade formal”, conta a diretora.

Essas cenas fictícias, saídas diretamente das lembranças de Alejandra e que mostram um mundo cor-de-rosa, acompanham sua busca emocional pela maternidade, enquanto ela lida com expectativas da sociedade e o julgamento implacável de seus sogros tradicionais. Após repetidos ciclos de esperança seguidos de abortos espontâneos, ela se convence de que ainda está gestando o bebê que tanto sonha.

Rosa é a cor da fantasia, de contos de fadas e princesas, mas também traz ideais conservadores sobre feminilidade e maternidade. “Existe uma imagem construída ao redor da maternidade que foi muito importante para nós. Analisamos tudo o que essa cultura e publicidade nos dizem sobre como as coisas devem parecer. É um lugar imaginário com suas próprias cores e símbolos, toda uma indústria que cria uma idealização que pode ser destrutiva para as mulheres”, diz Maite.

Para Alejandra, realmente foi. A parte fictícia do filme usa a linguagem de um suspense psicológico, com toques de humor, levando a protagonista a um ponto sem volta, que acaba no Hospital Geral do México. Então, quase na metade, Meu Próprio Filho muda subitamente de tom e forma. O documentário deixa de lado a realidade imaginada por Alejandra e foca na investigação do caso, apresentando registros judiciais, depoimentos de especialistas e outras perspectivas que contestam a história que o público acabou de presenciar. Entre elas está Mayra, a mãe biológica da bebê raptada, que nega veementemente a alegação de Alejandra sobre ter dado a sua filha.

Maite admite que tudo mudou quando ela conheceu Mayra. Durante a produção do filme, ela e a equipe começaram a repensar o relacionamento que tinham formado com a versão de Alejandra. Descobrir as outras perspectivas, principalmente a de Mayra, fez com que eles recuassem, não se distanciando totalmente da protagonista, mas alcançando uma compreensão mais profunda e compassiva sobre ela. Por que ela fez aquilo? O que está por trás da necessidade de contar a história da forma como ela faz? Somente no final, após mostrar 15 anos da vida de Alejandra, o documentário chega perto de responder a essas perguntas.

A diretora diz que é essencial ter o tempo necessário para entregar uma perspectiva autêntica. Em vez de apresentar a transformação de Alejandra, Meu Próprio Filho é estruturado em torno do processo de compreensão da história por parte de Maite, um processo de quatro anos de observação, investigação, questionamentos e acompanhamento dos envolvidos. “Sem tempo, eu não saberia como me posicionar e os documentários não poderiam desenvolver uma perspectiva sobre fatos”, explica a cineasta.

Meu Próprio Filho também é o primeiro documentário que Maite gravou inteiro no México, um país que ela acredita ser muito parecido com o Chile. As semelhanças incluem a forma como as duas sociedades idealizam a maternidade, ao mesmo tempo que falham em oferecer uma assistência pública adequada às mulheres. No México, onde ideias conservadoras sobre gênero e família continuam moldando vidas, a cineasta diz que o apoio psicológico para mulheres que enfrentam aborto espontâneo é quase inexistente. “A situação no Chile é tão precária quanto lá. Para mim, essa é uma das grandes tragédias na história da Ale. Ela recebeu apoio psicológico quando chegou na prisão, mas na época dos abortos não. No Chile, ainda é comum que mulheres que perderam seus bebês dividam o quarto do hospital com mães que acabaram de ter seus filhos. É muito traumático”, conta a diretora.

Paciente em uma clínica deitada em uma maca de exames enquanto uma médica observa um monitor de ultrassonografia, com cartazes de anatomia ao fundo.

No fim, Meu Próprio Filho não é a história de um crime, nem de um ato extraordinário ou uma curiosidade isolada. É a história de mulheres como Alejandra e Mayra, cujas vidas foram construídas por traumas, perdas, expectativas de gênero e o impacto profundo que essas forças podem ter na saúde mental, principalmente em um sistema que continua a estigmatizar abortos espontâneos e falha em oferecer cuidados adequados. “Essa história levantou questões sobre maternidade que são novas para mim, questões que raramente temos espaço para discutir abertamente. As pessoas acabam compartilhando suas experiências depois de assistirem ao filme e as conversas se tornam uma forma de catarse coletiva”, reflete Maite.

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