Kerry Washington, estrela de ‘Batalhão 6888’, fala sobre dar voz a histórias não contadas - Netflix Tudum

Kerry Washington se apresenta para o serviço usando quepe e uniforme verde.
Entrevista

Kerry no comando

Com Batalhão 6888 e Filhas, Kerry Washington coloca histórias poderosas em destaque.


Texto original de Krista Smith
Foto de AB+DM
17 de jan. de 2025

Se não fosse por Tyler Perry, Hollywood talvez tivesse deixado passar um de seus maiores talentos: Kerry Washington. No fim dos anos 2000, antes de conquistar o público como Olivia Pope na série de sucesso Scandal, Kerry sentia que já tinha realizado tudo o que queria como atriz e estava pronta para seguir em frente. “Estava fazendo uma peça na Broadway e amava o palco, amava aquela experiência, mas pensei que cheguei onde queria chegar. Cresci em Nova York sonhando em estar na Broadway. E, quando finalmente consegui, pensei que era a hora de mudar de rumo e fazer outra coisa”, relembra a vencedora do Emmy®.

Mas aí o telefone tocou. Tyler Perry ofereceu a Kerry um papel importante em Para Garotas de Cor, sua adaptação do aclamado poema coreográfico da dramaturga e poeta Ntozake Shange sobre as experiências de mulheres negras. Segundo a atriz, fazer esse filme e trabalhar ao lado de algumas das referências que ela sempre admirou mudou a sua vida. “Isso me manteve na indústria por mais um tempinho. Ainda bem”, conta ela sobre o elenco, que reunia nomes em ascensão na época, como Tessa Thompson e Anika Noni Rose, além de atrizes consagradas como Loretta Devine, Janet Jackson e Phylicia Rashad.

Podemos agradecer, e muito. Kerry seguiu mostrando toda a sua versatilidade em uma série de projetos, incluindo o mais recente, Batalhão 6888, que marca seu reencontro com ninguém menos que Tyler Perry, roteirista, diretor e produtor do filme. No drama histórico, ela interpreta a major Charity Adams, comandante do 6888.º Batalhão do Diretório Postal Central, a única unidade formada por mulheres negras enviada ao exterior durante a Segunda Guerra Mundial. Tyler explica que as cartas de casa significavam tudo para os soldados no front, mas, no Natal de 1944, milhões de correspondências estavam acumuladas na Inglaterra: “Para fazer as cartas chegarem às tropas, era preciso criar um novo sistema, que seria administrado por uma nova unidade disposta a provar que dava conta do recado.”

As mulheres zeraram a fila de correspondências em tempo recorde, mas a história delas permaneceu praticamente esquecida. Ao ler o roteiro de Tyler, baseado em um artigo de 2019 escrito por Kevin M. Hymel, Kerry soube na mesma hora que queria participar do projeto e ajudar a dar visibilidade às conquistas dessa unidade. “Fiquei muito honrada, porque essas mulheres existiram de verdade e o legado que deixaram é extraordinário”, diz a atriz, que também é produtora executiva do filme. 

Para a equipe do filme, Kerry era a escolha perfeita para viver Adams. “Kerry sempre foi minha primeira opção. Ela é forte, confiante, gentil e empática. Respeita e valoriza as mulheres e a história, especialmente a história das mulheres negras. E está sempre pronta para colocar em primeiro plano quem enfrenta grandes desafios”, diz a produtora Nicole Avant.

Mas Batalhão 6888 não é o único projeto novo da atriz. Por meio de sua produtora, Simpson Street, ela foi produtora executiva do emocionante documentário Filhas, sobre o projeto Date with Dad, que incentiva homens encarcerados a participar de um programa de 10 semanas sobre responsabilidade e paternidade, que termina com um baile especial entre pais e filhas dentro de uma prisão em Washington. Sobre o filme, Kerry garante: “É de partir o coração, mas, ao mesmo tempo, enche o peito de esperança.”

A seguir, confira uma versão editada da conversa. 

Bastidores de ‘Batalhão 6888’ com Kerry Washington. A atriz usa o uniforme da personagem e posa diante de uma parede de pedra.

Bastidores de Batalhão 6888 com Kerry Washington no papel da major Charity Adams

Falando sobre Batalhão 6888, imagino que você tenha aceitado de cara quando Tyler Perry te ligou para oferecer esse papel. 

O 6888.º resolveu um problema que parecia impossível. Durante a Segunda Guerra Mundial, as Forças Armadas decidiram parar de entregar as correspondências para economizar recursos. Pensaram: Vamos deixar toda a correspondência acumulada e resolvemos isso depois. Só que as pessoas começaram a entrar em pânico. As esposas não recebiam notícias dos maridos, os maridos não recebiam notícias das esposas. As mães não sabiam se seus filhos estavam vivos. As emoções estavam à flor da pele, e o moral estava baixo porque as pessoas não se sentiam conectadas. Havia hangares de aviões lotados de cartas, e deram às mulheres seis meses para tentar resolver o problema. Elas conseguiram fazer isso em menos de 90 dias.

Gostei muito de assistir ao filme e de ver como ele retrata o que era ser uma mulher negra naquela época, ainda mais em um ambiente militar. 

O nível de misoginia e racismo que enfrentamos dentro desses sistemas é esmagador. Dou muito crédito ao Tyler porque, quando ele me ligou, confesso que fiquei pensando: Como se faz um filme sobre correspondências? Mas, quando li o roteiro, entendi tudo. Ele reuniu um elenco incrível de mulheres jovens, e elas representam a ideia de que nós, mulheres, não somos todas iguais. Elas vêm de diferentes partes do país e vão para a guerra por motivos completamente diferentes. A gente conhece essa guerra pelos olhos delas, e eu tive o privilégio de ser a capitã do grupo. Minha missão é guiá-las nessa jornada.

Como foi voltar a trabalhar com Tyler, depois de 15 anos desde a última vez que vocês estiveram no mesmo set?

Quando penso em tudo o que o Tyler construiu, fico muito inspirada. Estar no estúdio dele, cercada por cenários enormes que homenageiam algumas das maiores lendas do cinema, e ver tantas pessoas que cresceram profissionalmente ao lado dele, pessoas cujas vidas ele transformou ao criar oportunidades, é algo muito especial. E tem ainda o peso histórico daquele lugar. O estúdio funciona em uma antiga base da Guerra Civil. Então, estamos literalmente ressignificando aquele espaço: no mesmo solo que um dia pertenceu ao exército confederado, cujo objetivo era manter pessoas negras escravizadas, hoje estamos contando a história de mulheres negras que ajudaram a lutar pela liberdade mundo afora. Eu me arrepiava todos os dias. Cada cena parecia uma forma de agradecer àquelas mulheres. 

A major Charity Adams (Kerry Washington) veste seu uniforme dentro de um caminhão do exército.

A major Charity Adams (Kerry Washington)

Você chegou a conhecer alguma das mulheres que fizeram parte do 6888.º Batalhão? 

Não cheguei a conhecer nenhuma pessoalmente, mas pudemos conversar com algumas delas por vídeo e por telefone. Elas estavam sempre emocionadas. Não conseguiam acreditar que estávamos contando essa história dessa forma. Fico muito feliz que elas estejam finalmente recebendo o reconhecimento que merecem. 

Agora vamos falar sobre o outro filme, o documentário Filhas. Como ele chegou até você? 

A Simpson Street tinha uma série chamada Fora da Prisão, em que tive o privilégio de trabalhar com Delroy Lindo, que interpretava meu pai. O personagem dele passou boa parte da vida entrando e saindo da prisão, e isso me fez entender de uma forma muito mais humana o que significa tentar reconstruir a vida depois de sair da prisão. A gente queria muito que famílias passando por situações assim pudessem se reconhecer nessas histórias e entender o quanto são importantes. Mas, para quem nunca passou por algo parecido, pode ser difícil compreender o impacto que o chamado sistema de justiça tem, de verdade, na vida das famílias. Alguns dos meus colegas produtores de Filhas foram até a Simpson Street e disseram: “Sua série fala sobre pais e filhas e sobre como o sistema de justiça criminal afeta as famílias. A gente quer te mostrar um documentário.”

Quando vimos o filme, ficamos maravilhados. Pensamos que é exatamente assim que se previne o trauma geracional que a minha personagem enfrenta em Fora da Prisão. É assim que podemos evitar tanta ansiedade e sofrimento dentro das famílias. Você aprende a dar a esses pais as ferramentas de que precisam para não voltar para a prisão depois que saírem e para construir uma conexão verdadeira e profunda com as filhas, mesmo durante um processo tão difícil. Assistir a esse filme faz a gente olhar para tudo isso com mais amor e compaixão.

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