





Na mitologia grega, um canto de sereia era algo cativante, lindo e capaz de causar devastação total. Sereias não eram mulheres mortais, mas uma representação do ideal feminino. Elas eram tão perigosas quanto sedutoras, e até os homens mais poderosos não conseguiam resistir e se tornavam vítimas desse charme intoxicante.
A nova minissérie Sereias apresenta as irmãs Devon (Meghann Fahy) e Simone (Milly Alcock), e a chefe de Simone, a misteriosa Michaela “Kiki” Kell (Julianne Moore), um trio de mulheres atraentes como as criaturas mitológicas, e que têm a mesma influência sobre os homens do seu convívio.
O principal entre eles é Peter Kell. Interpretado por Kevin Bacon, o marido bilionário de Michaela é amigável na mesma medida que sua esposa é intimidadora, e ele circula por sua ilha tranquilamente como um capitão em águas conhecidas. Mas Peter não é apenas um peão nos jogos que acontecem ao seu redor. Como a criadora de Sereias, Molly Smith Metzler, diz ao Tudum: “a Michaela fala que todas elas trabalham para o Peter”.
O que isso significa sobre quem está no poder em Sereias e quem tem a habilidade para melhorar ou destruir vidas apenas abrindo a boca?
Abaixo, o Tudum conversa com Kevin Bacon sobre a série, se monstros existem e como Sereias é “claramente a história das mulheres”.
Adoraríamos saber um pouco sobre a sua primeira experiência em Sereias e como foi mergulhar nessa história.
Bem, não estou no primeiro episódio e, quando cheguei, só os dois primeiros estavam escritos. Tive que observar o segundo episódio e conversar com a Molly para entender aonde o Peter iria, porque, quando conhecemos o personagem, ele é um certo mistério. Você não sabe exatamente o que está acontecendo com ele.
Então, tive que manter a fé que ele teria um arco interessante. É sempre na base da confiança quando se aceita algo assim, sem ter lido toda a história. Há personagens ótimos nessa série e muitos papéis fantásticos, mas a história é claramente das mulheres.
Seu personagem está em oposição às três mulheres principais, que são uma força da natureza e realmente mostram o que é ser uma mulher empoderada. Elas representam aspectos diferentes do poder feminino, mas todas têm um potencial muito nítido. Algo fascinante no Peter é o fato de ele ser um bilionário — e ninguém se torna um por acaso — com a influência vindo de uma aparente acessibilidade, empatia e simplicidade. Como essas características mascaram e aumentam o poder dele?
Concordo. Ninguém se torna um bilionário sem querer, e eu realmente quis garantir que ele teria poder diante de mulheres também poderosas. Mais que isso, eu não queria representar só um completo babaca, porque isso seria simples demais.
Não seria muito desafiador para mim interpretar um bilionário. Já fiz isso antes e não é grande coisa, é só um tipo de vilão. Então, conversamos muito sobre isso, e a nuance está no charme do Peter. Também tentei dar um toque juvenil a ele, mesmo ele não sendo claramente um menino.
De certa forma, eu parecia um pouco imaturo e a personagem de Julianne Moore, Michaela, é nitidamente quem controla a série. Mas as coisas começam a mudar um pouco, e depois mudam muito. Graças ao roteiro, isso transforma tudo, e eu senti que o jeito de fazer isso acontecer seria deixá-lo com um ar infantilizado e até mesmo um pouco bobo e tímido. Foi divertido fazer a parte onde ele conhece a Simone, porque parece que ele tem 15 anos de novo. Ele não sabe muito bem como reagir e passa vergonha, como se fosse um garoto.

É interessante pensar nisto: esse homem tem tanto poder, responsabilidade e liberdade, mas o que leva à maior mudança na sua vida é ter acesso à sua criança interior. Você acha que, em algum momento, o Peter se apaixona pela Simone?
Não acredito que ele saiba quando se apaixonou pela Simone. Acaba acontecendo de uma maneira engraçada e, mesmo depois de beijá-la, ele percebe coisas sobre si, como: “O que estou pensando? Isso foi estranho. Não sei o que estou fazendo, talvez eu estivesse chapado”. Acho que isso também acontece quando ele corre até a praia, fugindo da casa… Ele sabe sim.
Há uma certa impetuosidade no Peter, mas também uma certeza, que é refletida nas escolhas que ele faz, inclusive quando mente para sua esposa, Michaela, sobre visitar os filhos e o novo neto. Por que você acha que ele cria essas histórias, em vez de contar a verdade?
Ele está em um momento importante na vida. Acho que muitos homens perdem a noção da importância da conexão com seus filhos. Eles correm atrás de ficar bilionários, jogar golfe, sair com os amigos, ter amantes, ou seja lá o que for. No final, acaba sendo comum pensarem “espera um pouco, esse é o meu legado, por falta de um termo melhor. Essas pessoas são meu sangue”.
É fascinante observar como o Peter percebe que seu legado e filhos importam, mas o que não parece importar muito — ou que pode ser mudado — é sua esposa. Isso mostra de onde vem o poder, quem realmente o tem. E ele escolhe usar essa autoridade de forma decisiva no final da série. Como você se sentiu sobre isso?
Não é necessariamente um final feliz; é desafiador. Acredito que algumas pessoas vão achar o Peter péssimo, enquanto outras vão dizer “não foi culpa dele”. Acho que teremos reações diferentes, afinal não é uma história ou final clichê.
Para mim, o Peter não é somente um homem rico e insensível que muda de esposa como quem troca de carro. Ele se importa. É daí que vem as intenções dele pela Simone?
Bem, ele realmente se apaixona por ela, sem sombra de dúvidas. Ele não usa a Simone, ele a ama e está bravo com a Kiki por afastá-lo de seus filhos durante todos esses anos. Essa parte é real.
Como você acha que o Peter fica no fim de tudo isso?
Não sei, é difícil dizer, afinal eu o interpretei. Só sei de uma coisa; como eu disse à Molly e à Nicole Kassell (diretora e produtora executiva): “vai ser fácil demais para o Peter se ele for só um vilão”.
Eu poderia fazer isso, já interpretei vilões muitas vezes, mas senti que precisava ter mais nuances aqui. Ou eu poderia mostrar o Peter como ele realmente é, e as pessoas chegariam às suas próprias conclusões.
Mas estou muito envolvido para opinar. Não amo todos os personagens que interpretei, mas preciso entender o ponto de vista deles de certa forma. Algumas vezes, dei vida a verdadeiros monstros, porém penso neles como seres humanos. Se são monstros mesmo, tudo bem, mas, quando estou interpretando um homem, não importa o que ele faça, preciso encontrar uma maneira de justificar — ou nem tanto justificar —, mas mostrar que ele é humano. É isso.
Sereias já está disponível na Netflix.
Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.


























































